Executivos precisam de tempo livre para ampliar conhecimentos
* Por Marcelo Mariaca
O avanço vertiginoso das novas tecnologias de qualquer natureza, incluindo as seis áreas estratégicas para as quais o FINEP do Ministério da Ciência e Tecnologia pretende direcionar 0,65% do PIB (saúde, energia, defesa, tecnologias da informação e da comunicação, biotecnologia e nanotecnologia), verificado a partir da segunda metade do século passado, foi saudado, entre outras conquistas, pela expectativa de que essas novas tecnologias facilitariam a vida das pessoas. Investimentos público e privado na inovação de materiais e aplicações científica e comportamental consolidaram esse cenário.
Na esteira dessa evolução, não faltaram gurus que festejaram a Tecnologia da Informação e, sobretudo, a Internet como instrumentos que economizariam o tempo gasto com tarefas operacionais e rotineiras, aumentariam a produtividade, acelerariam os processos e, consequentemente, otimizariam o tempo dos executivos, que teriam mais disponibilidade para ficar com a família e melhor usufruir as horas de lazer.
A experiência e algumas pesquisas têm mostrado, no entanto, que a jornada de trabalho do executivo não diminuiu, como se previa - ao contrário, aumentou. Se, por um lado, facilitaram o trabalho e, indiscutivelmente, promoveram um fantástico incremento da produtividade, por outro, as tecnologias em muitos casos ampliaram a jornada de trabalho. Os escritórios agora se estendem às residências, às cafeterias, aos bares, às mesas em volta das piscinas, com laptops plugados em redes wireless. Em muitos casos, vão junto com a bagagem nas viagens de férias.
São incontáveis as pesquisas e estudos de especialistas que mostram os prejuízos de jornadas excessivas de trabalho à saúde e ao bem-estar do executivo e a importância do lazer para restabelecer e recuperar as energias. Porém, pouco se fala dos prejuízos ao aprimoramento cultural do executivo, que é sabidamente de grande relevância não só para o crescimento pessoal e profissional, mas, também, para o sucesso do negócio.
O processo de globalização tornou mais crítica essa situação. Hoje, não basta ao executivo ser fluente em vários idiomas e conhecer bem o seu ramo, como se dizia antigamente. Para que tenha sucesso, é importante ao executivo, principalmente aquele que busca uma carreira internacional, ter boa formação cultural e amplos conhecimentos gerais, conhecer e entender bem as outras culturas.
Quando expatria um executivo, a empresa geralmente oferece uma consultoria para que ele receba informações básicas sobre a cultura, as leis, os valores daquele país. Ajuda, mas não é suficiente. O desempenho do executivo vai depender de todo o background adquirido ao longo de sua vida por meio de livros (não apenas obras técnicas relativas à sua profissão, mas também a grande literatura), filmes, peças de teatro, exposições de arte, bons jornais e revistas, além de palestras e cursos.
Mesmo para executivos que não aspiram a uma carreira internacional, a formação cultural é extremamente importante. Um profissional de marketing, por exemplo, deve ter uma visão ampla para entender a identidade de um determinado público, os padrões culturais e comportamentais, os códigos jurídicos e morais, as crenças, atitudes e idéias. E isso, claro, não se obtém somente com a leitura de uma pesquisa de consumo, mas com investimento ao longo de toda a vida na construção do conhecimento.
É por isso que muitas empresas passaram a incentivar e promover práticas culturais para seus funcionários, cientes de que elas são benéficas não só para o bem-estar dos colaboradores, como para ampliar os conhecimentos que se refletem no aprimoramento da gestão.
O nó da questão, porém, é o fator tempo. Os executivos costumam reclamar que o acúmulo de tarefas, de relatórios, de reuniões, de encontros, de treinamentos e workshops voltados para o trabalho confisca boa parte do tempo que poderiam dedicar-se ao lazer e atividades culturais. Em boa parte dos casos, trata-se de falta de capacidade de administrar o próprio tempo. Em outros, é uma das contingências das transformações por que passa o mundo corporativo há duas ou três décadas. Mas há casos também de desatenção das empresas, que falham na organização de processos, tanto operacionais como os de tomada de decisões, o que desorganiza a vida privada dos executivos, privando-os de tempo livre para o lazer e o aprimoramento cultural.
Empresas de tecnologia do Vale do Silício, nos Estados Unidos, como Google, Microsoft, Apple e outras, por exemplo, foram pioneiras em garantir a funcionários e gestores tempo livre, até mesmo durante a jornada de trabalho, para desenvolverem projetos pessoais ou aprimorarem seus conhecimentos em qualquer área. Essa atitude, comprovadamente, tem reflexos altamente positivos na inovação e na criatividade, matérias-primas desse segmento altamente dinâmico, competitivo e inovador. Será que funciona em outras empresas?
* Marcelo Mariaca é presidente da Mariaca, parceiro global para o Brasil da Lee Hecht Harrison e da InterSearch Worldwide Ltd., e professor do MBA da BBS – Brazilian Business School, associada à Universidade de Richmond.
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